Ao conversar com estudantes sobre Carl Gustav Jung, percebo que muitos sustentam uma visão excessivamente idealista 1 ou racionalista2 da realidade. Mais do que isso, frequentemente ignoram um dos pilares da psicologia junguiana: o inconsciente.

É comum julgarem que determinados comportamentos ou sentimentos têm explicações concretas e evidentes, desconsiderando quase por completo a dimensão inconsciente — mesmo quando, teoricamente, demonstram compreender sua existência e importância.

Essa postura se revela, por exemplo, diante de pessoas que não conseguem sair de situações que as fazem sofrer. A resposta imediata costuma ser: “Se ela está infeliz, basta mudar; vamos ajudá-la a mudar.” Essa forma de compreender o sofrimento parte da crença de que ele decorre exclusivamente de fatores objetivos, como se bastasse reorganizar os elementos visíveis para que o conflito interno desaparecesse.

Esse tipo de resposta combina racionalismo e idealismo. Parte-se de uma ideia preconcebida: de que o elemento concreto, por si só, é suficiente — seja porque se tem uma teoria explicativa, seja porque se acredita em um bem ideal e universal que todos deveriam alcançar. É como se a mudança estivesse apenas na decisão racional ou na adequação a um ideal.

Contudo, mesmo quando uma ação é concretizada, o sofrimento pode persistir. Quantos psicólogos e psicoterapeutas já acompanharam pessoas que desejavam emagrecer e que, ao conseguir, continuaram em sofrimento — às vezes, até mais intensamente?

É claro que, em muitos casos, o elemento concreto pode ser parte da solução. A mudança de hábitos, de ambiente, de relações ou de circunstâncias materiais pode aliviar o sofrimento e abrir espaço para o movimento psíquico. O problema está no preconceito — muitas vezes inconsciente — que faz supor que o sofrimento se resolve apenas por via do concreto, ignorando as camadas simbólicas, emocionais e subjetivas da experiência.

Esse tipo de leitura reducionista pode obscurecer os caminhos da escuta, empobrecer o vínculo terapêutico e desviar a pessoa de um processo autêntico de elaboração e autonomia.

Se a concretude bastasse, todos responderíamos da mesma forma diante das situações. A psicologia, então, seria dispensável — bastaria um manual de boas práticas.

É claro que todo exemplo tem suas limitações. O essencial aqui é destacar a complexidade do fenômeno psíquico. Vejamos um exemplo comum na clínica: alguém deseja mudar de vida, iniciar um novo projeto, romper com um padrão que a paralisa — e, ainda assim, repete comportamentos que mantêm tudo como está. Ou, então, expressa angústia profunda por não conseguir fazer aquilo que sabe ser importante para si. O sofrimento, nesses casos, não se explica apenas por fatores racionais. Ele aponta para algo que escapa à vontade consciente: a presença viva do inconsciente, que precisa ser reconhecida e integrada.

É nesse ponto que a noção de apercepção, conforme descrita por Jung em Tipos Psicológicos, se torna central. Ele afirma:

“Apercepção. É um processo psíquico pelo qual se articula um novo conteúdo com conteúdos semelhantes e já existentes, de modo que se o considere entendido, apreendido ou claro. Distinguimos uma apercepção ativa e uma passiva; a primeira é um processo mediante o qual o sujeito apreende conscientemente, por si mesmo e por motivação própria, um novo conteúdo e o assimila a outros conteúdos já à disposição; a outra é um processo pelo qual um novo conteúdo se impõe de fora (pelos sentidos) ou de dentro (a partir do inconsciente) à consciência, forçando, de certa forma, a atenção e a apreensão. No primeiro caso, o acento da atividade está no eu; no segundo, no novo conteúdo que força sua presença.”

Ainda que os fatos sejam os mesmos para todos, a maneira como cada pessoa os percebe, vivencia e interpreta — por meio de pensamentos, sentimentos, sensações, reflexões e intuições — será sempre única, moldada por sua história, seus complexos e sua estrutura de personalidade. A apercepção mostra que não é a realidade objetiva em si que determina a experiência, mas o modo como ela é internamente articulada.

Por isso, alguém pode sentir-se incapaz, mesmo diante de um histórico de realizações. Ou inseguro, apesar de todos os elementos indicarem o contrário. O que está em jogo não é o fato, mas a forma como o fato é significado na psique. A realidade é atravessada por camadas subjetivas que a transformam e, muitas vezes, a distorcem.

Jung reforça esse ponto ao afirmar:

“Psicologicamente não está decidido — para usarmos uma comparação banal — se o apetite em si tem alguma coisa a ver com a natureza daquilo que se deseja. Externamente, por certo, importa que tipo de objeto é desejado, mas internamente o que realmente importa é o tipo do processo de desejar. […] Para a avaliação psicológica, este ‘como’ é mais importante do que o ‘o quê’ — si duo faciunt idem, non est idem (se dois fazem a mesma coisa, não é a mesma coisa).”

Essa perspectiva convida o analista a suspender julgamentos imediatos e considerar a singularidade dos processos psíquicos — aquilo que não aparece na superfície, mas insiste em se manifestar através do sintoma, da repetição, da tensão e do sofrimento.

Cadu Borbolla
CRP: 06/157956

  1. dealismo: Doutrina filosófica que enfatiza a primazia das ideias, da consciência ou da razão na constituição da realidade. Na prática, refere-se à tendência de interpretar o mundo com base em ideais ou modelos perfeitos, muitas vezes desconsiderando as contradições e os limites da experiência concreta. ↩︎
  2. Racionalismo: Corrente filosófica que valoriza a razão como fonte principal e mais segura do conhecimento. Na psicologia, manifesta-se como a tendência a explicar comportamentos e emoções apenas por meio da lógica e da consciência, ignorando fatores inconscientes e subjetivos. ↩︎

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