Resumo: No livro Tipos Psicológicos, Jung analisa a noção de compensação inicialmente formulada por Adler, entendendo-a como um mecanismo de equilíbrio funcional frente ao sentimento de inferioridade. Para Adler, a inferioridade do neurótico leva à criação de uma “linha diretiva fictícia”, que visa transformar a fraqueza em uma imagem de superioridade — fenômeno que Jung compara ao desenvolvimento compensatório de órgãos frente a deficiências físicas. Jung, porém, amplia esse conceito ao enxergar a compensação como uma função autorreguladora geral da psique. Ele observa que a consciência, por sua natureza seletiva e unilateral, exclui conteúdos que passam ao domínio do inconsciente. Esses conteúdos formam um contrapeso e podem emergir como imagens espontâneas ou sonhos, especialmente quando há excesso de unilateralidade. Em situações normais, esse processo regula inconscientemente a consciência, promovendo equilíbrio e adaptação. Porém, quando há neurose, o contraste entre consciência e inconsciente se intensifica, e a compensação deixa de ser funcional. Nesses casos, a psicoterapia analítica tem como objetivo tornar conscientes os conteúdos inconscientes, favorecendo a restauração da autorregulação psíquica.
Trecho do livro Tipos Psicológicos, grifo nosso, onde começa falando sobre a compensação Adleriana:
[773] (839) Compensação. Significa equilibração ou substituição. O conceito foi introduzido propriamente por A. Adler [22] na psicologia das neuroses [23]. Entende por compensação a equilibração funcional do sentimento de inferioridade por um sistema psicológico compensador, comparável ao desenvolvimento compensador de órgãos nas deficiências orgânicas. Diz Adler: “Com a separação do organismo materno começa, para esses órgãos e sistemas orgânicos deficientes, a luta com o mundo externo, luta essa que deve ocorrer e que será mais violenta do que se fosse normal o aparelho […] Mas o caráter fetal fornece juntamente maior possibilidade de compensação e supercompensação, aumenta a capacidade de adaptação a obstáculos comuns e incomuns e garante a formação de novas e melhores formas, de novos e melhores rendimentos [24].
O sentimento de inferioridade do neurótico que, segundo Adler, corresponde etiologicamente a uma deficiência orgânica, enseja uma “construção auxiliar” [25], ou seja, uma compensação que consiste em produzir uma ficção capaz de equilibrar a inferioridade. A ficção ou “linha diretiva fictícia” é um sistema psicológico que procura transformar a inferioridade numa superioridade. Nesta concepção é significativa a existência, empiricamente inegável, de uma função compensadora no campo dos processos psicológicos. Corresponde, no campo fisiológico, a uma função semelhante ao autocomando ou autorregulação do organismo.
Trecho do livro onde começa falando de seu entendimento, empirico, sobre a compensação:
[774] (840) Enquanto Adler limita seu conceito de compensação à equilibração do sentimento de inferioridade, considero-o em geral como equilibração funcional, como autorregulação do aparelho psíquico [26]. Neste sentido, considero a atividade do inconsciente (v.) como equilibração da unilateralidade da atitude geral, causada pela função da consciência. Os psicólogos gostam de comparar a consciência ao olho. Fala-se de um campo visual ou centro visual da consciência. Esta comparação caracteriza bem a natureza da função da consciência: só poucos conteúdos chegam ao mais alto grau de consciência e apenas reduzido número de conteúdos pode estar ao mesmo tempo no campo da consciência. A atividade da consciência é selecionadora. A seleção exige direção. E direção exige exclusão de todo o irrelevante. Disso resulta obviamente certa unilateralidade da orientação da consciência. Os conteúdos excluídos e inibidos pela direção escolhida caem, em princípio, sob o poder do inconsciente, mas, devido à sua existência efetiva, constituem contrapeso à orientação consciente, contrapeso que, ao aumentar a unilateralidade consciente, também cresce e conduz finalmente a uma tensão notória. Esta tensão significa certa inibição da atividade consciente que, no entanto, pode ser rompida por um acréscimo de esforço consciente. Mas, com o tempo, a tensão aumenta de tal forma que os conteúdos inconscientes inibidos se comunicam com a consciência, sobretudo por meio dos sonhos ou de imagens de “livre ascensão”. Quanto maior a unilateralidade da atitude consciente, maior a oposição dos conteúdos que provêm do inconsciente, de modo que podemos falar de verdadeiro contraste entre consciência e inconsciente. Neste caso, a compensação se manifesta em forma de função contrastante. Este é um caso extremo. Em geral, a compensação pelo inconsciente não é um contraste, mas uma equilibração ou complementação da orientação consciente. O inconsciente dá, por exemplo, no sonho, todos os conteúdos constelados para a situação consciente, mas inibidos pela seleção consciente, cujo conhecimento seria indispensável para a consciência se adaptar plenamente.
[775] (841) Em situação normal, a compensação é inconsciente, isto é, atua de forma inconscientemente reguladora sobre a atividade consciente. Na neurose, o inconsciente está em contraste tão forte com a consciência que a compensação fica prejudicada. Por isso, a terapia analítica procura uma conscientização dos conteúdos inconscientes para restabelecer a compensação.


Deixe um comentário